A arquitetura de Casapueblo, do artista Carlos Paez Vilaró, é a inspiração de Vinícius de Moraes para escrever “A Casa” que vive na memória da infância brasileira

“Era uma casa / Muito engraçada / Não tinha teto / Não tinha nada / Ninguém podia / Entrar nela não / Porque na casa / Não tinha chão / Ninguém podia / Dormir na rede / Porque a casa / Não tinha parede / Ninguém podia / Fazer pipi / Porque penico / Não tinha ali / Mas era feita / Com muito esmero / Na Rua dos Bobos / Número Zero.” (A CASA, Rio de Janeiro, 1970)

Há 15 minutos de distância da agitação, do luxo e da ostentação de Punta del Este, balneário uruguaio, com lojas de grifes, cassinos e iates, encontra-se a pacata e sossegada Punta Ballena. E é encravada na sua encosta, que está Casapueblo, a inspiração do “poetinha” para escrever o poema “A Casa”.

Seu criador, Carlos Paez Vilaró, nascido em 1923, em Montevidéu, é um artista plástico do movimento construtivista. Pintor e escultor, ele nunca se limitou a apenas uma expressão artística, como se vê em sua aventura arquitetônica. Por não ser de fato arquiteto, Carlos se refere a João-de-Barro, pássaro sul-americano conhecido por fazer sua própria casa, como inspiração para a construção de Casapueblo, e se defende “se um pássaro pode construir sua casa, eu não precisaria de títulos para tal”.

Portanto, mesmo sem diploma, em 1958, Carlos começou a erguê-la com as madeiras trazidas pelo mar, e com a ajuda de pescadores da região. Somente em 1960, cobriu-a de cimento, criando uma estrutura ao redor da antes chamada “la pionera”. A casa cresceu espontaneamente, sem planejamento prévio, conforme as necessidades e os desejos de Carlos surgiam.


© Pablo O Palmeiro


© Wagner Casimiro

Como uma escultura, feita pelas próprias mãos do artista, a opção pela imperfeição, contra as linhas e os ângulos retos, foi escolhida para torná-la mais humana. As paredes e tetos em curvas, parecem um labirinto, por vezes claustrofóbico, mas também acolhedor. Abraçada a costa, alçada ao mar e acompanhando o relevo, a harmonia entre a construção e a paisagem pode ser vista como uma forma de contemplação da natureza.

Apesar de grande parte do trabalho do artista estar em coleções privadas européias, o museu possui sua fase mais recente. Por exemplo, na sala “Rafael Squirru” encontra-se uma série de quadros de 1999, dedicada aos jogos. Suas jarras de cimento, as cerâmicas e esculturas, influenciadas pela arte primitiva, de simbologia africana, tomam conta do ambiente, estando em todos os cantos. O tema altamente explorado pelo pintor, o sol, também está presente, assim como na arte das civilizações ancestrais maias e astecas.


© Rori.D

Diversas personalidades do meio político, como Che Guevara, Fidel Castro e o atual presidente do Uruguai, Pepe Mujica, assim como célebres do meio cultural, como o arquiteto brasileiro Oscar Niemeyer e o escritor argentino Jorge Luis Borges, eram figuras frequentes em Casapueblo. Alguns amigos até receberam homenagens, que podem ser vistas em placas pela casa, como: “Canto de Mario Vargas Llosa”, “Ruazinha do Pelé”, “Sala Pablo Picasso”. E foi da necessidade de abrigar tantos amigos e, portanto, de construir mais quartos, que o artista decidiu transformar parte de Casapueblo em hotel.


© Joelma Terto

Como se não bastasse a contemplação do mar calmo e quase sem ondas do Uruguai, assistir à “cerimônia do Sol” desde as varandas de Casapueblo é uma experiência única. Enquanto o Sol se põe, uma gravação emitida pelos alto-falantes traz uma homenagem do pintor ao astro, e agradecendo-lhe pelo espetáculo diz: “Casapueblo é a tua casa, por isso todas a chamam de a casa do sol”.

Se inspirado no arquiteto catalão António Gaudí, ou no estilo mediterrâneo das ilhas gregas de Santorini e Mikonos, Casapueblo é uma obra de arte por si só e possui uma das vistas mais belas e privilegiadas do entardecer, onde é possível contemplar toda a beleza do mar, e lá no horizonte, ver os prédios e as luzes na baía de Punta del Este. A intenção de Carlos Paez Vilaró era fazer uma escultura para se viver, que não fosse apenas sua, mas de todos, o que se vê que foi um fato bem sucedido.

VIAThaís Folgosi
FONTEObvious Mag
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