Por Octavio Caruso

Um lindo filme que todos os pais devem mostrar aos filhos pequenos.

O livro original, escrito pela R.J. Palacio, pode ser lido em uma madrugada, linguagem fácil e acessível, capítulos curtos, estrutura simples e muitos diálogos, mas muito rico em sua mensagem, encantador da primeira à última página. É fascinante a forma como o roteiro se mantém fiel à essência infanto-juvenil da obra, sem resvalar no melodrama piegas que o tema sugere, transpondo com inteligência e muita sensibilidade as agruras diárias do pequeno Auggie, vivido pelo impecável Jacob Tremblay, que nasceu com síndrome de Treacher Collins, um distúrbio do desenvolvimento craniofacial que o faz querer se esconder do mundo.

Os seus pais, vividos por Julia Roberts e Owen Wilson, temem que ele seja rejeitado em seu primeiro contato com outras crianças na escola. Vale ressaltar uma breve e comovente cena protagonizada por Sonia Braga, simbolizando a lembrança querida da avó falecida, os valores que prepararam a família para suportar qualquer desafio. É linda a relação entre ele e sua irmã adolescente, excelente atuação de Izabela Vidovic, o jeito como ela consegue sintetizar carinho profundo e preocupação em um olhar, sendo beneficiada pelo texto que proporciona uma construção tridimensional de sua personalidade, evidenciando a angústia que ela precisa vencer constantemente por ter consciência de que a existência do menino forçou os pais a deixarem, por vezes, as suas necessidades emocionais de lado. Há espaço até para uma esperta rima mostrando a famosa cena de “Dirty Dancing” na televisão, com Patrick Swayze dizendo que “ninguém coloca a Baby de lado”. As referências da cultura pop, algo intrínseco no livro, como o amor do protagonista pela saga “Star Wars”, são trabalhadas com extrema eficiência. Sem reinventar a roda, o filme poeticamente insere o elemento poderoso da arte como instrumento de inspiração.

Há uma corrente tola na crítica que enxerga problema na história que objetiva primordialmente as lágrimas dos espectadores, ignorando que é muito mais difícil tocar os corações do público, não é uma equação fácil, qualquer diretor consegue criar algo que incite indiferença, poucos nos comovem. Eu me recordo claramente de quando vi pela primeira vez “Marcas do Destino” (Mask – 1985), ainda na infância, como aquela imagem do jovem que sofria de displasia craniodiafisária me perturbou a princípio, até que a emoção superou qualquer estranheza, eu amadureci ao final da sessão. São filmes fundamentais que os pais devem mostrar aos filhos pequenos. O que motivou a autora de “Extraordinário” foi testemunhar a reação de uma menina na rua à passagem de uma criança com uma deformação facial, ela decidiu fazer algo a respeito objetivando jovens leitores, aqueles que efetivamente podem modificar algo na sociedade em longo prazo. Grande parte das vezes, a crueldade que vemos nas crianças nasce dos adultos, seres que dificilmente modificam diante da percepção do erro. O roteiro aponta isto em uma forte cena, os pais de um aluno que pratica o bullying em Auggie dão um espetáculo de arrogância e estupidez na sala do diretor da escola, intolerantes e preconceituosos, avalizam desavergonhadamente as atitudes do garoto.

O diretor Stephen Chobsky, do ótimo “As Vantagens de ser Invisível”, equilibra muito bem os diferentes pontos de vista narrativos, conceito existente no livro, dedicando tempo generoso ao desenvolvimento de personagens periféricos e, principalmente, reforçando o impacto transformador da presença do menino em suas vidas, a força suave e terna que, ao corajosamente resistir às provocações, ensina a todos o valor inestimável da gentileza.

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