Depois de quebrar as pernas de apostadores em 2016 – dando o prêmio mais importante da literatura a um músico, Bob Dylan – a academia sueca fez uma escolha menos polêmica neste ano, e concedeu o Nobel de Literatura ao nipo-britânico Kazuo Ishiguro.

O autor – conhecido pelo romance Os Vestígios do Dia (1989), cuja adaptação cinematográfica, de 1993, recebeu oito indicações ao Oscar – nasceu em Nagasaki, no Japão, em 1954, e se mudou com os pais para a Inglaterra aos cinco anos. Se graduou em Letras e Filosofia no final da década de 1970 e é escritor em tempo integral desde 1982.

Sua obra mais famosa não é só um clássico instantâneo. Ele também é resultado de um dos exercícios criativos mais malucos da literatura contemporânea. Para escrevê-lo, Ishiguro se trancou em um quarto das 9 da manhã às 10 da noite, de segunda a sábado ao longo de um mês, sem telefone ou televisão para interrompê-lo, e parando só para comer.

“Dessa maneira, eu esperava, eu não só trabalharia mais do ponto de vista quantitativo como alcançaria um estado mental em que meu mundo ficcional se tornaria mais real para mim que o mundo real”, explicou o autor em um relato da experiência. Até esse confinamento voluntário, no verão de 1987, ele escrevia em uma desconfortável mesa de jantar – e precisava lidar com tantos convites, jantares e entrevistas que não conseguia mais se dedicar a seu ofício.

Some o “causo” literário curioso aos toques de ficção científica e distopia de seus lançamentos mais recentes e dá a impressão de que Ishiguro está mais para cientista louco que escritor. Mas Sara Danius, secretária da academia sueca, garante que ele recebeu o anúncio como um gentleman: “Ele foi muito encantador, tranquilo e educado, é claro. Disse que estava muito grato e honrado, e que esse é o maior prêmio que se pode receber.”

A escolha foi pé no chão: um homem, que escreve em inglês e vive em um país desenvolvido. Talvez por causa das escolhas menos usuais dos anos anteriores – antes de Dylan, a jornalista bielorrussa Svetlana Aleksiévitch levou o páreo –, jornalistas e críticos apontavam o queniano Ngugi Wa Thiong’o e a canadense Margaret Atwood como favoritos.

O anúncio oficial afirma que “o trabalho de Ishiguro é marcado por um modo de expressão cuidadosamente contido, independente do que está acontecendo” – o que rendeu comparações com Franz Kafka, autor tcheco pioneiro na arte de narrar o absurdo com naturalidade.

Ishiguro também tem um lado mais light: toca violão e guitarra (muito bem, afirmam os amigos, mas este repórter não encontrou vídeos para confirmar), e é fã do compositor de voz rouca Tom Waits. Contou aos repórteres que, antes da ligação, soube da notícia pela TV – sua esposa saiu correndo do cabeleireiro e voltou para casa depois de uma saraivada de notificações no celular.

“Chegou um tempo em que o mundo está incerto sobre seus valores, suas lideranças e sua segurança. Eu só espero que, recebendo essa grande honra, eu, mesmo que só um pouco, dê coragem às forças do bem”, afirmou ele em uma entrevista coletiva.

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