Uma das mais promissoras bailarinas de Nova York é negra, brasileira, pouco favorecida financeiramente. Estas palavras não deveriam ser as primeiras usadas para apresentar um talento nato das sapatilhas, mas o balé costuma ter uma realidade racista, quase tão limitante quanto a falta de oportunidade agregada à pobreza no Brasil.

Ingrid nasceu e foi criada no bairro de Benfica, no Rio de Janeiro. Aos 8 anos, conheceu o “Dançando Para Não Dançar”, de Teresa Aguilar. O projeto social, criado no Morro da Mangueira, oferece às crianças carentes do Rio de Janeiro acesso à educação, à cultura, à saúde e à profissionalização com o ensino do balé clássico, antes restrito apenas às pessoas de maior poder aquisitivo.

E foi aí que a menina sapeca que ficava dando estrelas em casa encontrou o lugar certo para gastar sua energia. Por meio do projeto, ganhou bolsa para a Escola de Dança Maria Olenewa, do Teatro Municipal do Rio de Janeiro e para o Centro de Movimento Deborah Colker. Aos 17, foi a Belo Horizonte estagiar com o renomado Grupo Corpo.

Em 2007, a principal bailarina do Dance Theatre of Harlem, Betânia Gomes, visitou a Mangueira e se encantou por Ingrid, que ganhou na hora um convite para uma audição. O resultado… Bom, é história. Em 2008, Ingrid desembarcou em Nova York sozinha, com 18 anos e sem falar uma palavra de inglês, para estudar Arthur Mitchell, diretor-geral da companhia e primeiro bailarino negro do New York City Ballet.

Para entender a importância desta conquista, um pouco de contexto! O Dance Theatre of Harlem surgiu em 1969 com a proposta de ser a primeira companhia de ballet negra dos Estados Unidos, mas Ingrid atualiza as definições de hoje para nós: “É uma companhia multirracial que defende, acima de tudo, a inclusão”. Entre seus componentes, há bailarinos do mundo todo — Coreia, Austrália, Brasil, Japão, entre outros.

Ingrid sempre foi fã de artistas como Ana Botafogo e Cecília Kerche, mas ser bailarina profissional nunca esteve nos seus planos. Ela nunca havia visto uma bailarina negra em posição de destaque no Brasil. “É difícil viver de dança, exceto por poucas companhias onde a rotatividade dos dançarinos é muito baixa. As pessoas ficam por anos e não há espaço para os novos. Então, [os bailarinos brasileiros] vão para o exterior por meio de competições ou bolsas, porque não há espaço para a dança no país. É triste. O Brasil é o país do futebol e do Carnaval, mas não valoriza as artes”.

E reforça: “Se não fosse pelo projeto [Dançando para Não Dançar], talvez eu nunca tivesse calçado uma sapatilha. Minha mãe é empregada doméstica e nunca teve condições para me proporcionar isso”.

Sua vida é tão inspiradora que virou filme. O curta metragem foi considerado poderoso por explorar a trajetória da jovem que supera as dores e resistência de ser uma bailarina pobre e negra em um país estrangeiro.

Fonte: Revista Glamour – por Rogéria Vianna, de Nova York (com adaptações)

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