Hipoteticamente, quando nascemos somos livres. Livres de dogmas, de pensamentos, de diretrizes, de verdades e tudo mais. Mas logo começam a nos direcionar como falar, raciocinar, andar e etc.

Existem os direcionamentos essenciais, sem os quais correríamos o risco de ficar engatinhando ao invés de andar sobre os pés o que é muito mais difícil; poderíamos apenas balbuciar, gesticular e gritar ao invés de aprender a falar e comunicar o que também é bastante complexo. Esses direcionamentos ampliam nossa relação com o mundo e por isso são positivos e necessários sempre.

Contudo há os direcionamentos que ao invés de nos capacitar para o mundo, nos engessam e ficamos, sem perceber, soterrados numa montanha de absolutismos e ditaduras que nos regem. Aprendemos que o certo, o bonito e o respeitável é ser de um jeito específico. E tudo o que se é e se constrói além deste jeito é tolerado apenas.

É por isso que dá tanto trabalho quebrar preconceitos. E que a verdade seja dita sem meias palavras: todo preconceito é idiota. Não passa de um ponto de vista obscuro, restrito e intolerante. E por mais incrível que pareça, há muita gente que gosta. Foi me dando conta dessa ditadura da sociedade, da moda, da religião que comecei a me “libertar”. Minha primeira atitude foi parar de ler revistas de beleza pois elas insistiam que eu nunca estava boa e bonita o bastante. Oras! Quando eu era pequena meu pai matou a charada percebendo que eu nunca me encaixaria nos padrões de estética.

Já tinha o lábio leporino e pela genética familiar provavelmente não seria nem alta e nem magra. Proibiu sob meus protestos todo mundo de me presentear com Barbies, boneca que eu sonhava ter. Porque as Barbies dão referências de corpo e cabelo “bonitos” e inatingíveis, e ensinam indiretamente que esse é o modelo a ser desejado.

Hoje, além de lábio leporino tenho baixa visão. Perda recente que me fez mudar todo meu jeito de me relacionar com o mundo. E muitas coisas que eram fáceis e que eu fazia até sem perceber, hoje são tarefas mais difíceis. Por um tempo achei que a vida não teria mais graça. Mas para minha surpresa tudo foi mudando. Um dia ouvindo comentários sobre a sujeira do chão, olhei e disse: “enxergar mal tem seu lado bom, o chão me parece bem limpinho!”. Percebi então que não via mais as minhas estrias e celulites. E eu que não mostrava as pernas agora uso saia curta. Isso foi simplesmente libertador!

A pergunta que não quer calar é: o que estamos esperando? A que custo eu me libertei dessas besteiras que me faziam passar calor! Precisei perder um bom bocado de visão para me reinventar! Custou caro… Será mesmo que precisamos esperar situações que nos levam a limites para darmos mais valor à vida e menos valor às mazelas cotidianas?

É muito mais difícil desconstruir paradigmas que construir. Somos construídos o tempo todo e de repente descobrimos que para sermos quem somos, de forma legítima e verdadeira precisamos quebrar boa parte do que foi construído. Dá trabalho, mas vale a pena! Eu garanto. A vida está passando. É preciso cuidado para não viver uma vida morta. O tempo de ter coragem é sempre agora!

FONTERaquel Alves
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