O bullying vem sendo um esquisito caminho para o estrelato.

O vídeo do maranhense Manoel Gomes, 49 anos, cantando sua composição “Caneta Azul” viralizou não por sentimentos positivos de empatia e admiração. Ninguém destacou o poder de sua voz. Não recebeu destaque pela sua postura musical ou pela criatividade de sua composição. O burburinho não se deve ao assombro da revelação de um timbre incomum de um artista simples de Balsas, que trabalha como vigilante.

Na verdade, as pessoas estavam rindo dele, zoando dele, numa brutalidade de memes e figurinhas.

Ele tornou-se uma corrente do deboche, já que sofre pela perda da caneta azul com uma aguda e sincera sofrência amorosa.

Fica, então, famoso por ser ridicularizado em rede nacional. Assim como alguém pode ser conhecido por um tombo, um fora, um barraco, uma gafe numa vídeo-cassetada.

É mais uma série de nossa fábrica incessante de gargalhadas coringas das ambições e do modo de vida alheio.

Por mais que tenha alcançado a projeção, não foi do jeito certo, a natureza de sua exposição é fruto da violência e da agressão, da ironia e do sarcasmo, do menosprezo à sua simplicidade, à sua cultura, e uma crítica nada velada à produção tosca e caseira do vídeo.

Transformaram a credulidade do músico em humor. Porque ele, diferente do tratamento recebido nas redes sociais, está interpretando de modo sério o seu sentimento, não fez para ninguém rir. Não é stand-up, não é uma comédia. Ele canta do fundo de seu coração o extravio de um objeto insignificante de preço, mas repleto de utilidade para a sua vida. Descreveu uma cena literal de sua experiência, sem nenhuma transcendência, quando a sua BIC com o nome dentro sumiu num dia de aula.

Manoel que já tem um disco e mais de 21 mil composições escritas, só saiu do seu anonimato e veio à tona pela detratação coletiva.

Artistas célebres repetiram o seu refrão para arrancar risadas, não suspiros.

É o mesmo que um trapezista ser confundido com o palhaço do circo.

Qual o motivo de repassarem a sua música? Por que é linda? Não, infelizmente, para mostrar o quanto ele é estranho, o quanto é ridículo se preocupar com uma caneta, o quanto ele é desafinado.

Sua canção repete as mesmas estruturas repetitivas e nonsenses de hits como “Florentina’, de Tiririca. O comediante virou deputado federal, não sei onde vai parar Manoel.

O que me preocupa é onde vamos parar com a nossa indiferença digital, neste completo desprezo ao sofrimento do outro.

Os meios justificam o fim no país, numa prova de falta de educação e de respeito em massa.

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