Por Isaias Costa

Quero, antes de mais nada, deixar esclarecido que não estou criticando os fotógrafos nem nada do gênero ok? Até porque tenho amigos incríveis que são fotógrafos por profissão e eu os admiro imensamente.

Esse é um texto que já há um bom tempo eu queria escrever, mas não vinha a devida inspiração. Ela chegou hoje ao ler uma linda crônica do mestre Rubem Alves do seu lindo livro intitulado “O amor que acende a lua”.

Muita gente me pergunta sobre o porquê de eu não gostar de tirar fotos minhas, e venho a partir das palavras do Rubem explicar o motivo. Confira…

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Há algo trágico no poema de Cassiano Ricardo.

Por que tenho saudade

de você, no retrato,

ainda que o mais recente?

E por que um simples retrato,

mais que você, me comove,

se você mesma está presente?

Quando li esse poema pela primeira vez tive a impressão de que ele estava brincando. Agora eu o leio como um lamento. Como eu amo você! Quem ama quer estar junto, segurar as mãos, ficar olhando para o rosto. Mas eu não sinto isso quando estou com você – eu não o encontro em você. Encontro no seu retrato. Olho para você, do outro lado da mesa. E me lembro do seu retrato. O retrato! Olho o seu retrato e sinto saudades. O retrato é o lugar da ausência.

Barthes diz que aquilo que todos os retratos retratam é a morte: o que deixou de ser, o que não é mais. O tempo do retrato é um passado irrecuperável. Amo um objeto que não tem mais existência: a sua imagem no retrato, morta, embora você mesma esteja presente. Meu amor mora num passado sem volta. Sendo esse o caso, não amo você, presente, diante de mim, do outro lado da mesa. Amo o “você” que escorregou do seu rosto, e mora agora no retrato, lugar da morte. Amor infeliz. Você, que eu posso abraçar, não é o “você” que eu amo…

A rosa florescia. Por que deixou de florescer?

Rubem Alves

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Eu acho lindas as comparações e referências utilizadas por ele, não é a toa que já tenha escrito tantos textos a partir de suas palavras. Percebo que eu tenho muitas coisas semelhantes a ele.

Não gosto de tirar fotos minhas porque elas são gélidas, ou seja, elas congelam um Isaias que dentro de bem pouco tempo deixará de ser. Até já escrevi em textos daqui e do blog do Raul Seixas que sou meio “metamorfose ambulante”. Eu mudo talvez com uma velocidade maior do que as outras pessoas.

Quando eu vejo uma foto minha bem antiga me dá uma sensação estranha. Na minha mente vem logo aquela pergunta: “Quem é essa pessoa?”. Ele se parece comigo, mas não sou eu, é outra pessoa.

Parece estranho, mas essa é a mais pura verdade em relação a tudo. Tudo muda o tempo todo, porém, infelizmente, a grande maioria das pessoas tem certa dificuldade de acolher isso no fundo do coração.

Inclusive essa reflexão do Rubem é levada para as pessoas que convivem ou conviveram conosco. Tanto nós quanto eles já não são mais os mesmos.

Claro que entendo quando alguém me diz: “Mas uma foto é bom para lembrar da experiência boa que aconteceu, do lugar bonito que se visitou, da pessoa que é ou foi importante etc…”.

Sei que isso é bacana. No entanto, pelo menos na minha mente, não deixa de ser esquisito. E o mais estranho é quando o alguém que aparece na foto já não faz mais parte da nossa vida. Nós vemos as fotos e ficamos pensando: “Como será que está ele(a) está hoje?”, “Isso que vivenciamos foi tão bom… Será que viverei algo parecido de novo?…”. E desse jeito ficamos com a mente enfurnada no passado e com isso deixamos de viver plenamente o momento presente.

Na verdade, essa é a principal razão para eu não gostar de tirar fotos. O MOMENTO PRESENTE é algo tão maravilhosamente lindo que ficar se prendendo ao passado das fotos faz com que parte do seu brilho se esvaia.

Você já viu como são as festas de casamento? Ou as festas de aniversário de criança de 1 ano? Esses são os melhores exemplos! Os casais não vivem plenamente o momento da festa porque ficam tirando milhares de fotos e os bebês ficam estressados porque ficam com diversos holofotes nos seus rostos. E em ambos os casos ninguém aproveita pra valer…

Como estamos na era dos smartphones, Ipads, Ipods etc. Isso se estende para a saída para restaurantes com os amigos, para os eventos, para as festas de fim de ano, para a passagem do ano. As pessoas se prendem em fotos, fotos e mais fotos, e quase imediatamente postam no Instagram ou no Facebook.

Repito o que disse no começo. Não quero criticar quem trabalha com fotografias, quero apenas questionar o dia a dia das pessoas de um modo geral.

Que tal aproveitarmos melhor os momentos e batermos menos fotos? Os vínculos de amizade poderão se tornar muito mais sólidos e bonitos, e passaremos a trabalhar melhor até mesmo a nossa memória para lá na frente lembrar os momentos incríveis vividos em conversas com amigos e não apenas com um book gigantesco no computador…

FONTEPara além do agora
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