Nos poemas de Ivete Nenflidio, em seu mais recente livro “Cartografias da saudade”, sentimos com clareza o caráter contraditório da vida.

Antônio Cândido, no livro “O estudo analítico do poema”, disse que os poetas não se cansam de nos mostrar a contraditoriedade da vida: amor e ódio, prazer e dor, medo e vontade, estão sempre juntos. Muito antes que a psicologia moderna pudesse explicar a realidade sobre os sentimentos humanos, lá já estavam os poetas. Nas palavras do crítico literário, “a arte percebeu antes da ciência”.

Nos mapas de Ivete Nenflidio a direção é para a natureza. A força de sua poesia está na pele, na separação forçada dos corpos apaixonados, no íntimo. A coletânea transborda paixão: é chama e também cinzas; saudade que aperta.


RECORTES DO LIVRO “CARTOGRAFIAS DA SAUDADE”

“Sem ti,
sou chão de concreto,
terra eivada…
Pássaro triste,
dia brumado,
inverno severo…
Sem ti,
o sereno habita meus olhos”

***

“Sei que logo voltará,
regressará para se fortalecer
e, no aconchego do meu ser,
na restinga dos meus olhos,
me verás colorida,
cores de bromélias…

E se refrescará no tempero
das minhas águas,
onde mergulhará
e me encontrará inteira,
e descobrirá no frescor da minha brisa
um voo de gaivota,
um vento fresco
paraíso de doces notas.

E no teu abraço,
no qual me perco,
grandes galhos labirínticos
impedirão a erosão do teu ser
e fortalecerás mais uma vez
as suas desgarradas raízes”

***

“Sou um livro,
com páginas desocupadas,
folhas cruas.
Nas linhas,
enredos de uma vida fugaz,
frases no sentido figurado.

No diário,
páginas arrancadas,
p’ra omitir o pecado.
Alguns caracteres leves,
outros estafantes.

No fundo,
escrevo para perdurar,
p’ra existir,
escrevo, p’ra seguir em frente,
escrevo, porque é preciso resistir.
Para que não fique ausente
o que tenho p’ra dizer”

***

“Ao te encontrar respirarei,
evasão de minha pele.
Ambiciono ser lida,
em voz alta,
com os dedos
ou em pensamentos.
Talvez,
não mais o encontre
Ou talvez eu te descubra
no limiar da primeira estrofe,
no vago e exato silêncio
das palavras incompreendidas.
Talvez eu te encontre nos versos,
na caminhada solitária do eu-poético,
nos caracteres tortuosos
produzidos pelas mãos trêmulas,
na margem da próxima página
ou talvez seja emoldurada
próximo a sua cama.
Talvez eu te encontre
na primeira frase,
no post scriptum,
ou quem sabe, simplesmente
seja invadida pelos seus olhos.

Sobre a escritora:
Ivete Nenflidio é escritora, pesquisadora, curadora artística de festivais e articuladora cultural desde 1996. Como autora, publicou livros de poesia, contos, crônicas e romances, entre eles as antologias: “Memórias Difusas” e “País Estrangeiro” (Ed Beira), a obra “Cartografias da saudade” (Ed. ITCC). Além da ficção “Calendas de Março”, obra viabilizada com recursos da Lei Aldir Blanc. Está em fase de lançamento de outras duas publicações: “Ataque” e “O sereno que habita meus olhos”, com previsão de lançamento para maio de 2022 (Ed. Telha).

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